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Psicologia

O impacto de crescer em ambientes imprevisíveis

Sara Valadares
O impacto de crescer em ambientes imprevisíveis

Crescer num ambiente imprevisível marca o corpo, as emoções e a forma como aprendemos a estar no mundo. Quando uma criança vive entre momentos de calma e explosões repentinas, mudanças bruscas de humor dos pais, discussões, tensão constante ou comportamentos agressivos, o sistema nervoso adapta-se para sobreviver. E essas adaptações vão sendo levadas para a vida adulta, mesmo quando já não fazem sentido.

Algumas coisas que o cérebro aprende quando cresce neste tipo de ambiente:

A calma não significa segurança. Muitas crianças aprendem que o silêncio é só uma pausa antes de tudo voltar a acontecer. Na idade adulta, isto transforma-se numa sensação permanente de alerta, mesmo quando “está tudo bem”.

O corpo fica sempre em vigilância. Olhar para expressões, prever reacções, evitar conflitos… O corpo habitua-se a funcionar em tensão. Mais tarde, surgem dificuldade em relaxar, ansiedade constante ou sensação de “estar sempre à espera de algo”.

A responsabilidade chega demasiado cedo. Cuidar de irmãos, proteger o progenitor mais frágil, gerir o ambiente para evitar problemas… A criança sente que tudo depende dela. Na vida adulta, isto aparece como culpa, autoexigência, perfeccionismo e dificuldade em pedir ajuda.

O amor mistura-se com medo. Quando as figuras cuidadoras são instáveis, o vínculo torna-se imprevisível. No presente, isto pode levar a relações em que há medo de se entregar, necessidade de controlar tudo ou receio constante de perder o outro.

As emoções são vividas em silêncio. Muitas crianças percebem que mostrar medo ou tristeza só complica ainda mais o ambiente. Mais tarde, surgem dificuldades em identificar o que sentem, em confiar ou em pedir apoio emocional.

São formas de sobrevivência. Estratégias que fizeram sentido na altura e que hoje podem ser revistas, com tempo e num espaço seguro.

A boa notícia é que o nosso cérebro reaprende. A psicologia ajuda a reconstruir sensações de segurança, redefinir responsabilidades, regular o corpo e perceber que, agora, já não está naquele ambiente.

Se cresceu num lugar onde nunca sabia como iria ser o dia… não é “dramático”, nem “sensível demais”. O seu corpo apenas aprendeu a estar preparado para tudo!

E pode aprender, aos poucos, a sentir-se seguro.